Por Carol Pilon, Consultora de Carreira da Cornerstone Career Services
Recentemente, comecei a ler Sem Medo da Rejeição, de Jia Jiang, e a leitura tem me feito pensar muito sobre o papel da rejeição nos projetos de carreira e, especialmente, nos processos de recolocação profissional.
Ao longo da vida, aprendemos a evitar situações que podem nos expor a um “não”. Em alguns contextos, fazemos isso quase de forma automática. Não entramos em contato com determinada pessoa porque imaginamos que ela não responderá. Não nos candidatamos a uma posição porque acreditamos não atender a todos os requisitos. Não pedimos uma apresentação, não retomamos uma conversa, não compartilhamos um projeto ou uma ideia porque antecipamos uma possível rejeição.
O curioso é que, muitas vezes, o “não” sequer aconteceu. Nós o construímos antes.
A partir da minha experiência acompanhando profissionais em momentos de transição de carreira, percebo como esse mecanismo pode se tornar ainda mais presente entre executivos experientes. Estamos falando de pessoas que construíram trajetórias consistentes, ocuparam posições de liderança, tomaram decisões relevantes e desenvolveram uma reputação profissional ao longo de décadas. Quando a carreira entra em um momento de mudança, no entanto, a exposição volta a fazer parte do processo.
É preciso dizer ao mercado que está disponível. Retomar contatos. Pedir conversas. Apresentar-se novamente. Participar de processos seletivos sem a certeza de avançar. Em alguns casos, conversar com profissionais que, anos atrás, ocupavam posições muito diferentes na estrutura corporativa.
Para quem passou boa parte da carreira sendo procurado, começar a procurar pode ser desconfortável.
E talvez seja justamente nesse ponto que o medo da rejeição se torne um obstáculo silencioso.
Quando a experiência aumenta o receio de se expor
Existe uma ideia de que profissionais mais experientes lidam melhor com a rejeição porque já viveram mais situações difíceis. Nem sempre é assim.
Quanto mais consolidada é uma identidade profissional, maior pode ser a dificuldade de se colocar novamente em uma posição de incerteza. Um executivo que passou anos sendo reconhecido por um cargo, por uma empresa ou por determinada posição no mercado pode sentir que cada resposta negativa questiona tudo o que construiu.
Mas um “não” em um processo de carreira raramente significa isso.
Uma contratação envolve contexto, timing, orçamento, desenho da posição, cultura, expectativas do gestor e uma série de variáveis que não estão necessariamente relacionadas à competência do profissional. Ainda assim, é comum transformar uma resposta negativa em uma avaliação pessoal.
O risco é que, depois de algumas experiências frustradas, o profissional comece a se proteger.
Reduz o número de conversas. Fica mais seletivo antes mesmo de entender as oportunidades. Evita pedir ajuda. Para de se movimentar.
A rejeição deixa de ser apenas uma possibilidade do processo e passa a determinar o comportamento.
Quantos “nãos” você está antecipando?
Essa é uma pergunta que tenho levado comigo desde que comecei a leitura.
Quantas oportunidades não chegaram a existir porque decidimos, antecipadamente, que a resposta seria negativa?
No trabalho de recolocação, falamos muito sobre estratégia, posicionamento, currículo, LinkedIn e networking. Todos esses elementos são fundamentais. Mas existe também uma dimensão comportamental da transição que não pode ser ignorada.
Movimentar uma carreira exige disposição para se expor a respostas que não controlamos.
Você pode enviar uma mensagem e não receber retorno. Pode participar de um processo e não ser escolhido. Pode marcar uma conversa que não levará imediatamente a uma oportunidade. Pode apresentar uma ideia e perceber que ainda não é o momento certo.
Isso não significa, necessariamente, que a ação foi inútil.
Uma conversa amplia repertório. Um contato pode se lembrar de você meses depois. Um processo seletivo ajuda a compreender como o mercado está percebendo sua trajetória. Uma resposta negativa pode trazer informações importantes para ajustar posicionamento, narrativa ou estratégia.
Nem todo movimento produz um resultado imediato. Mas a ausência de movimento tende a produzir resultados bastante previsíveis.
Networking também exige tolerância à rejeição
Talvez esse seja um dos pontos em que o medo do “não” mais aparece.
Ainda encontro profissionais que associam networking a pedir emprego. Por essa razão, evitam contatos justamente no momento em que mais precisam ampliar conversas com o mercado.
Networking, no entanto, não deveria começar quando surge uma vaga e tampouco se resumir a um pedido.
É construção de relacionamento, troca de contexto, curiosidade genuína sobre o outro e disposição para manter conexões profissionais ao longo do tempo.
Mesmo assim, retomar uma rede depois de anos pode gerar desconforto. “O que essa pessoa vai pensar?”, “Vai parecer interesse?”, “E se ela não me responder?”
Talvez não responda.
Mas o que exatamente você perde ao tentar?
Em muitos processos de transição, percebo que parte do nosso trabalho como consultores é ajudar o profissional a separar rejeição de valor profissional. Uma resposta, ou a ausência dela, não resume uma trajetória de 20 ou 30 anos.
Carreira também é um exercício de exposição
Jia Jiang ficou conhecido por transformar sua relação com a rejeição ao se expor deliberadamente a situações em que poderia ouvir “não”. Não porque buscasse respostas negativas, mas porque queria reduzir o poder que elas exerciam sobre suas decisões.
Não acredito que um processo de carreira precise se transformar em uma coleção de rejeições. Mas acredito que vale observar o quanto o medo delas está limitando nossos movimentos.
Às vezes, a próxima oportunidade não exige uma nova formação, uma mudança completa de posicionamento ou uma estratégia mais sofisticada.
Talvez exija enviar a mensagem que está há semanas nos rascunhos.
Retomar aquela conversa.
Pedir uma apresentação.
Demonstrar interesse por uma oportunidade.
Compartilhar uma ideia.
A carreira é construída também pelas portas que decidimos bater sem saber, antecipadamente, se serão abertas.
Por isso, deixo uma reflexão que a leitura deste livro despertou em mim e que considero especialmente importante para quem vive um momento de transição:
O que você deixou de fazer na sua carreira porque teve medo de ouvir “não”?
Talvez a resposta revele mais sobre o seu próximo movimento do que você imagina.


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