Sabático: pausa na carreira ou estratégia para construir o próximo ciclo?

Por Carol Pilon, Consultora de Carreira da Cornerstone Career Services

Depois de 20 ou 30 anos de carreira, parar pode ser mais difícil do que continuar.

A rotina executiva nos acostuma ao movimento. Um projeto termina e outro começa. As metas são renovadas, as responsabilidades aumentam e as decisões se acumulam. Mesmo nas mudanças de empresa, muitas vezes a lógica permanece a mesma: encerrar um ciclo e encontrar rapidamente o próximo.

Foi pensando nisso que conversei com Cristina Rensi em uma edição do Momento Carreira, série de entrevistas da Cornerstone sobre os movimentos e as decisões que atravessam a vida profissional.

Cristina construiu uma trajetória de 27 anos em grandes empresas. Quando seu último ciclo corporativo chegou ao fim, a saída não aconteceu por decisão própria. Ainda assim, diante de uma situação que não havia planejado, ela tomou uma decisão importante: não sair imediatamente em busca de uma nova posição.

Escolheu um período sabático.

A história de Cristina me chamou atenção porque se aproxima da realidade de muitos profissionais que acompanho. Executivos que construíram carreiras consistentes, ocuparam posições relevantes e, diante de uma transição, sentem uma enorme pressão para definir rapidamente o próximo passo.

É compreensível. Para quem passou décadas resolvendo problemas, tomando decisões e entregando resultados, permanecer algum tempo sem uma resposta clara sobre o futuro pode gerar desconforto.

Há também uma preocupação objetiva com o mercado. Como explicar esse período? O que os recrutadores vão pensar? Será que ficar alguns meses fora reduz minhas chances de voltar?

São perguntas legítimas. Mas a experiência de Cristina ajuda a colocar outra questão nessa conversa: depois de tantos anos seguindo o ritmo das organizações, quando encontramos tempo para pensar com profundidade sobre a carreira que ainda queremos construir?

Quando seguir em frente vira o movimento automático

Carreiras executivas são construídas, em grande parte, pela capacidade de avançar. Aceitar desafios, assumir novas responsabilidades, liderar equipes maiores e responder a contextos cada vez mais complexos faz parte desse percurso.

O problema aparece quando continuar se torna a única opção considerada.

Ao longo dos processos de transição que acompanho, encontro profissionais que sabem detalhar os últimos 20 anos da própria trajetória, mas têm dificuldade de responder o que desejam para os próximos dez.

Não falta competência. Muitas vezes, falta espaço para pensar.

Um período sabático pode oferecer esse espaço. E isso não significa passar meses completamente desconectado da vida profissional.

No caso de Cristina, a pausa envolveu viagens, novas experiências, conversas e contato com outras formas de viver e trabalhar. O afastamento da rotina corporativa permitiu observar a própria trajetória com uma distância que dificilmente seria possível enquanto estava imersa na agenda executiva.

Um sabático não precisa ser um desaparecimento do mercado

Uma das preocupações mais comuns de quem considera uma pausa é perder relevância profissional.

Por isso, planejamento faz diferença.

Organização financeira é parte importante dessa decisão, especialmente porque a ausência de uma renda recorrente pode transformar um período de reflexão em uma fonte permanente de ansiedade. Também é preciso pensar sobre a duração da pausa, os objetivos daquele período e a forma de manter relações profissionais ativas.

Networking continua sendo importante. Aprendizado também. A diferença está no ritmo e na intenção.

Há profissionais que aproveitam esse tempo para estudar um tema que sempre despertou interesse. Outros retomam projetos pessoais, fazem viagens longas, atuam como mentores, participam de conselhos ou se aproximam de novos setores.

Não existe um roteiro único para um sabático. O que precisa existir é consciência sobre o motivo daquela pausa.

Nem toda pausa começa por escolha

A trajetória de Cristina também traz um aspecto importante para a conversa sobre carreira: às vezes, o intervalo acontece antes que estejamos preparados para ele.

Uma demissão, uma reestruturação ou o encerramento inesperado de um ciclo pode interromper uma trajetória que parecia ter continuidade.

Nessas situações, existe uma diferença entre estar sem uma posição e decidir como utilizar esse período.

Isso não significa romantizar uma saída involuntária. Uma demissão pode trazer insegurança, frustração e impacto financeiro. Cada profissional vive esse momento de uma forma.

Mas, passado o impacto inicial, há decisões a serem tomadas. E uma delas é definir se o próximo movimento precisa, necessariamente, reproduzir o anterior.

Foi esse exercício que Cristina se permitiu fazer.

Depois de uma carreira longa, a pausa pode ajudar a ampliar as opções

Existe uma tendência natural de buscar o próximo cargo a partir do último. Um diretor procura outra posição de diretoria. Um CEO procura uma nova cadeira de CEO. Um profissional de determinada indústria concentra sua busca no mesmo setor.

Essa lógica faz sentido em muitos casos, mas não precisa ser automática.

Ao longo de décadas, um executivo acumula competências que podem ser aplicadas de diferentes formas. Consultoria, conselho, mentoria, empreendedorismo, projetos independentes ou uma nova posição corporativa podem coexistir entre as possibilidades.

O desafio é conseguir enxergá-las.

Quando toda a energia está direcionada para voltar rapidamente ao mercado, é fácil limitar a busca ao caminho mais conhecido. Uma pausa bem utilizada pode ampliar o campo de visão antes de uma nova decisão.

Parar também pode fazer parte da carreira

Depois da conversa com Cristina, fiquei pensando sobre o quanto ainda tratamos a carreira como uma sequência que não pode ser interrompida.

Formação. Trabalho. Promoção. Nova posição. Mais responsabilidades.

Qualquer intervalo parece exigir uma justificativa.

Para profissionais com 20, 30 ou 40 anos de trajetória, talvez seja necessário rever essa lógica. A longevidade profissional aumentou. Muitas pessoas seguirão trabalhando por mais tempo e terão diferentes ciclos de atuação ao longo da vida.

Nesse contexto, alguns meses de pausa não definem uma carreira. O que fazemos com as decisões seguintes tem um peso muito maior.

O sabático não é uma escolha adequada para todos. Exige planejamento e condições pessoais e financeiras que precisam ser consideradas com responsabilidade.

Mas a história de Cristina deixa uma pergunta que considero valiosa para qualquer profissional, mesmo para quem não pretende fazer uma pausa:

Se você não precisasse decidir o próximo cargo imediatamente, que possibilidades consideraria para os próximos anos da sua carreira?

Talvez valha dedicar algum tempo a essa resposta.

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