Na última edição do Conexão Carreira, a Cornerstone Career Services recebeu Alexandre Powell para uma conversa com seus clientes sobre um tema cada vez mais presente nas reflexões de executivos em transição ou em busca de novos ciclos profissionais: o empreendedorismo como possibilidade de carreira.
No encontro “Empreendendo com Inovação”, realizado em 18 de junho, Alexandre compartilhou experiências da sua própria trajetória e trouxe uma discussão especialmente relevante para profissionais que acumulam décadas de atuação em posições de liderança. Mais do que falar sobre abrir uma startup ou abandonar uma carreira consolidada, a conversa abordou como transformar experiência, repertório, rede de relacionamentos e conhecimento de mercado em novas formas de geração de valor.
Ao longo de uma carreira corporativa consolidada, é natural que a identidade profissional se organize em torno de estruturas conhecidas: metas, equipes, processos, orçamento, governança e marcas estabelecidas. Para Alexandre, essa foi durante anos a realidade de uma trajetória construída em grandes organizações, com experiência em gestão, estratégia e operações.
A decisão de empreender, no entanto, trouxe uma constatação importante: uma carreira executiva bem-sucedida não garante, por si só, uma transição simples para o empreendedorismo. Embora os dois universos exijam capacidade de decisão, visão de negócio e liderança, suas lógicas são diferentes. Em uma organização estruturada, há recursos, times especializados e processos que sustentam a execução. No empreendedorismo, especialmente no início, há menos estrutura, mais incerteza e a necessidade de assumir responsabilidades que antes estavam distribuídas entre diversas áreas.
Essa mudança exige mais do que conhecimento técnico. Exige uma nova relação com risco, tempo, recursos e validação.
Um dos aprendizados mais marcantes da trajetória de Alexandre veio justamente de uma experiência que não saiu como planejado. Motivado por uma oportunidade de negócio, ele investiu em um empreendimento cuja proposta parecia consistente: o mercado era promissor, os envolvidos tinham experiência e a ideia fazia sentido. Ainda assim, o estudo de viabilidade não foi aprofundado como deveria, e o planejamento financeiro não contemplou todos os cenários necessários para sustentar a operação até a geração de caixa.
Os recursos terminaram antes do previsto. O negócio seguiu adiante, mas Alexandre precisou sair da operação. A experiência reforçou uma lição que vale para qualquer executivo considerando empreender: experiência não substitui validação; conhecimento de mercado não elimina a necessidade de testar hipóteses; e confiança na ideia não pode ocupar o lugar de planejamento.
Ao mesmo tempo, Alexandre observa que muitos profissionais experientes subestimam os ativos que construíram ao longo de décadas. Uma rede de relacionamentos consistente, reputação, credibilidade, conhecimento profundo de determinado setor, capacidade de tomar decisões em ambientes complexos e aprendizados acumulados em momentos de pressão ou crise são ativos difíceis de replicar. Em muitos casos, são mais valiosos do que o capital inicial disponível para um novo negócio.
Esse repertório se torna ainda mais relevante em um momento em que empreender ficou mais acessível. A tecnologia reduziu barreiras que antes exigiam equipes grandes, investimentos elevados e longos ciclos de desenvolvimento. Ferramentas digitais e soluções de inteligência artificial permitem que profissionais testem hipóteses, estruturem ofertas, produzam análises e coloquem projetos no mercado com mais agilidade e menor custo.
Mas a tecnologia, por si só, não resolve o desafio de construir um negócio. Ela acelera a execução, mas não substitui a capacidade de identificar um problema relevante, compreender o contexto do cliente ou tomar boas decisões. Para Alexandre, esse é justamente um dos pontos em que profissionais seniores podem ter uma vantagem competitiva importante: a inteligência artificial amplia a produtividade, mas a experiência direciona as perguntas, interpreta as respostas e faz a curadoria necessária para transformar informação em valor.
Outro equívoco recorrente é associar empreendedorismo exclusivamente à criação de startups. Embora negócios de tecnologia possam ser um caminho interessante, eles não são a única alternativa — nem necessariamente a mais adequada para todos os perfis. Consultorias, mentorias, franquias, aquisição de pequenos negócios, investimentos e modelos híbridos também podem fazer parte de uma estratégia empreendedora. A escolha depende de fatores como capital disponível, apetite ao risco, prazo necessário para geração de caixa, interesse em operar o negócio e objetivos de longo prazo.
Para muitos executivos, a transição não precisa ser imediata ou radical. É possível começar com uma atuação paralela, transformar conhecimento em uma oferta de consultoria, testar uma tese de mercado ou construir uma nova frente de receita antes de deixar a carreira corporativa. Mais do que escolher entre permanecer executivo ou tornar-se empreendedor, o desafio pode estar em desenhar uma trajetória que combine os dois mundos de forma coerente com o momento de vida e os objetivos profissionais de cada pessoa.
Essa visão também muda a pergunta que orienta a busca por novas oportunidades. Em vez de partir da ideia de encontrar uma solução inédita ou “a próxima grande ideia”, Alexandre propõe começar pelo problema: qual desafio recorrente você conhece profundamente? Que necessidade de mercado consegue compreender melhor do que a maioria? E de que forma sua experiência pode contribuir para resolvê-la?
Ideias são importantes, mas não se sustentam isoladamente. O que constrói um negócio é a capacidade de executar, ajustar a rota, ouvir o cliente e continuar aprendendo. Para profissionais com décadas de carreira, o empreendedorismo não precisa representar uma ruptura com tudo o que foi construído. Pode ser, ao contrário, uma forma de transformar repertório, relações e conhecimento em um novo ciclo de geração de valor.
A pergunta, portanto, é como você pretende utilizar tudo o que construiu ao longo da carreira para criar o próximo capítulo de sua trajetória?


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